A preocupação (ou pré-ocupação)

Era sexta-feira, dia quatro. Novembro mal tinha se apresentado quando a primeira notícia sobre a instalação de UPPs na Rocinha e

UPP Vidigal

Polícia já estava posicionada a entrada do Vidigal alguns dias antes da ocupação

Vidigal foi disparada pela mídia. A informação começou, desde então, a chicotear os pensamentos de quem trabalha com cultura e turismo no morro: qual o tipo de controle que passaria a existir sobre a vida social daqueles que nada têm a ver com o tráfico de drogas?
Marcada para o dia 13 de novembro, pouco mais de uma semana depois, a ocupação significava pelo menos uma coisa: naquela sexta-feira o Vidigal teria seu último baile funk. O evento gratuito e tão peculiar, que acontecia semanalmente em uma ladeira em forma de curva, no Largo do Santinho, chegaria ao fim. A proibição dos bailes é uma das maiores reclamações e pontos de conflito nas comunidades pacificadas*.

A seguir, a preocupação girava em torno das outras festas, que hoje movimentam boa parte da economia local. Voltariam a acontecer? Naquela sexta-feira estaríamos também na última edição da badalada Lamparina? Haveria Digitaldubs no próximo sábado? O que seria da noite do Vidigal que, de tão interessante, havia sido capa do caderno Rio Show, um mês antes, e cenário para o clipe de Fiuk com Jorge Bem Jor, duas semanas atrás?

Três dias antes da ocupação, o Choque chegou ao Vidigal e se postou nas principais saídas.  Revistava boa parte dos carros que passavam na Niemeyer. Com a prisão de Nem, na quinta-feira, uma sensação estranha pairava no ar, daquele tipo que só os períodos de transição permitem que existam.

Ocupação Vidigal - UPP

Tanque de guerra do Vidigal: e precisava de tudo isso?

Sábado, 12 de novembro, deu algumas das respostas para todas as dúvidas dos últimos dias. O Vidigal aguardava quase em silêncio a chegada da polícia. Três festas haviam sido canceladas, incluindo aí o ensaio do bloco Acadêmicos do Vidigal. No entanto, pelo menos dois focos de resistência puderam ser ouvidos: do Casarão do Nós do Morro ecoava um belo batuque até no início da noite. No Vidigalbergue, hóspedes que vieram passar o feriado na favela e se depararam com a ocupação preferiram não sair do hostel e comemoram juntos o aniversário do proprietário, André Lima.

Parecia ano-novo, mas com uma expectativa ao contrário: todos se perguntavam onde passariam a “virada”, tomavam banho e esperavam a meia-noite chegar. Nos mercados, as filas enormes demonstravam o medo de que o comércio não abrisse nos próximos dias.
A tensão era evidente. Caso o governo adiasse em um dia a operação, metade do morro teria padecido do coração. Não havia mais espaço para tanta ansiedade.

Havia, entre muitos, o medo dos abusos policiais, que foram vistos em outras ocupações para implantação de UPPs, e também em décadas de invasões no próprio Vidigal. Ideias surgiam: “Se um policial quiser roubar meu laptop arremesso ele no chão, mas não entrego”, cogitava um. “Depositem todo seu dinheiro no banco”, aconselhava outro.

Um grupo de observadores internacionais (três americanos, um islandês e um irlandês) hospedados na Casa Alto Vidigal, acompanhava tudo de cima do morro. De lá, avistaram as barreiras que estavam sendo feitas, para impedir a passagem dos tanques.

Às 2h30 da manhã a Avenida Niemeyer foi fechada para o trânsito e incontáveis carros do Choque e polícia militar circulavam de um lado para o outro. Por volta das 4h da manhã, a imprensa reunida na praça do Vidigal recebeu a notícia de que os blindados estavam deixando o Leblon em direção ao morro.
Os tanques de guerra estavam chegando, o Vidigal estava prestes a mudar.

(*Curiosamente, foi no Santinho que a polícia patinou durante a ocupação: o óleo jogado pelos traficantes impediu a subida do Caveirão e dificultou a de três tanques da marinha)

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