O turismo sobe o morro

Capa Rio Show - Alto Vidigal

Não é de hoje que as favelas cariocas vêm se tornando um dos destinos prediletos dos turistas, em especial, os estrangeiros. Jeeps e favelas tours já se esforçavam para mostrar a pobreza de algumas comunidades, quando o Vidigal trouxe a novidade: atrair visitantes em busca de beleza e cultura.

Quarto do Vidigalbergue: primeiros albergues no morro em 2010

Na realidade, a movimentação já fazia parte da vida do Vidigal. Há muito tempo, antes da violência tomar conta de suas ruas, becos e vielas, o morro estava acostumado a receber visitantes, muitos em busca de diversão, como os famosos bailes do Clube Águia. (Veja um vídeo em que o cantor Jorge Bem Jor conta de suas fugas, ainda adolescente, para curtir o Vidigal).

Esse processo de redescoberta aconteceu lentamente, a partir do fim da guerra entre facções, por volta de 2006. Ao mesmo tempo em que os confrontos armados diminuíam, os curiosos começavam a subir o morro e a descobrir um lugar diferente, difícil de catalogar.

Revista de O Globo (01/2009) destaca o projeto de Rolf Glaser no Vidigal

O investidor
Em 2009 o investidor alemão Rolf Glaser comprou dezenas de casas no Vidigal. A ideia era transformar o morro em um pólo turístico a partir da instalação de uma ONG, a Vidigal Feliz. Inclusos no projeto, um museu, casa de suco e a possibilidade de alguns moradores começarem a oferecer o sistema “cama e café”, para atenderem aos turistas.
Questões burocráticas, problemas dentro e fora do morro, fizeram o investidor desistir do projeto na época, mas a iniciativa ainda gera movimentação: responsável pela reforma dos imóveis adquiridos por Rolf, o arquiteto Hélio Pellegrino comprou um terreno no Arvrão, onde em 2013 inaugurou o “Mirante do Arvrão” seu hotel que fechou um ano e meio depois, em 2015. Segundo a justificativa, os poucos quartos não eram suficientes para manter a estrutura do espaço, que desde então passou a funcionar apenas para festas, que ultrapassam os três dígitos no valor de entrada.

Os mochileiros
Os projetos pensados por Rolf não saíram do papel, mas a demanda dos turistas pelo morro da Zona Sul só aumentava. Foi quando, no final de 2010, início de 2011, surgiram as duas primeiras opções de hospedagem turística no Vidigal: a Casa Alto Vidigal, no Arvrão, e o Vidigalbergue, no 14. Cada um à sua maneira, eles apenas oficializaram o que já faziam há algum tempo em suas próprias casas: hospedar visitantes que começavam a chegar.

Alto Vidigal: antes e depois

Com os albergues, surgiram também as opções de turismo interno, especialmente a trilha para o Morro Dois Irmãos, foco do trabalho do Vidigalbergue. Já o Alto Vidigal passou a ser, ele mesmo, uma atração: um ano antes da pacificação, suas festas já reuniam até 600 pessoas no topo do morro.

Agora, com segurança 24h
O interesse pelo morro se consolidara a tal ponto, que a violência já não era mais um empecilho para quem desejava conhecer o Vidigal. A convivência de turistas com traficantes era pacífica. Em dias de festa no Arvrão, por exemplo, não se via homens armados. Cada pessoa que subia o morro e perdia o medo, iniciava uma cadeia de propaganda boca a boca, que chegou aos jornais. Em outubro de 2011, um mês antes da pacificação, as festas do Vidigal foram capa do Caderno Rio Show, de O Globo.

Na madrugada do dia 13 de novembro de 2011, em pleno feriadão, o Batalhão de Choque entrou no Vidigal, iniciando o processo de pacificação. Enquanto os blindados subiam a rua principal, no Vidigalbergue algumas dezenas de turistas festejavam o aniversário do proprietário.

Matéria de O Globo sobre as festas no Vidigal – antes da pacificação

O Choque ficou no Vidigal por dois meses. Com a inauguração da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em 18 de janeiro de 2012, o processo de turismo no morro se acelerou.
Com policiais por todos os cantos, os últimos receosos começaram a subir. O Vidigal entrou para o roteiro turístico de agências, os meios de hospedagem se proliferam, o comércio se amplia a cada dia.

Desde então, o desafio é equilibrar o avanço do turismo e a permanência dos antigos moradores no morro, além da manutenção da limpeza da trilha e organização do transporte pelas precárias vias do Vidigal.