Ocupação e UPP

Que eles subiriam em breve, isso não era novidade. E o em breve estava cada vez mais perto. Vidigal, Chácara do Céu e Rocinha eram as três últimas favelas da Zona Sul ainda não tomadas pela polícia para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Ficaram por último por algumas razões, entre elas a falta de efetivo para tomar conta de tanta gente na Rocinha, já que não era possível entrar em uma, sem entrar nas outras. Mas havia, também, outro motivo essencial: desde o fim da guerra entre as facções Comando Vermelho (CV) e Amigos dos Amigos (A.D.A), em 2006, quando a segunda se manteve no poder, o morro entrou em um período de calmaria.

Ainda pairavam as leis de controle, mas de forma mais maleável. Era preciso ter cuidado na hora de tirar fotos, ou de subir o morro com o farol alto, por exemplo. Havia armas, pontos de venda de droga, e desrespeitar as leis poderia ser fatal. Fora isso, o comando funcionava como uma espécie de prefeitura, cuidando da organização urbana local, controlando moto-táxis, proibindo o despejo de lixo nas ruas e, principalmente, evitando assaltos e qualquer outro problema que pudesse chamar a atenção da polícia, ou que os ameaçasse.

Ao contrário do que se pode imaginar, não era vontade ampla e irrestrita que a polícia entrasse. Muitos moradores sem qualquer relação com o tráfico preferiam, e ainda preferem, o morro como estava, principalmente por causa da segurança. Outros, simplesmente temiam a chegada de policiais, cujo histórico de violência não deixou marcas positivas ao longo dos anos.

E o “em breve” se fez presente
E foi com dúvida e ansiedade que o Vidigal recebeu em uma sexta-feira, 4 de novembro, a notícia de que na madrugada do dia 13 seria iniciado o processo de pacificação. Não era oficial, mas a certeza pairava: aquela era, também, a noite do último baile funk na rua.
A rotina no morro, porém, não foi alterada. Os homens continuaram armados em seus postos, sem preocupação aparente. Até a prisão do chefe do tráfico na Rocinha, Nem, na quinta-feira, 9 de novembro, quando tudo mudou. Foram três dias atípicos. Sem comando paralelo, sem comando oficial. A polícia passou a fazer plantão na praça, ainda sem subir.

O sábado, dia 12, foi extremamente atípico. Parecia ano-novo, mas com uma expectativa ao contrário: todos se perguntavam onde passariam a “virada”, tomavam banho e esperavam a meia-noite chegar. Nos mercados, as filas enormes demonstravam o medo de que o comércio não abrisse nos próximos dias.
A tensão era evidente. Caso o governo adiasse em um dia a operação, metade do morro teria padecido do coração. Não havia mais espaço para tanta ansiedade. (leia texto postado na época).

Ocupação pelo Batalhão de Choque
No início da madrugada, o espaço aéreo foi fechado. Jornalistas e alguns poucos curiosos se reuniam na praça de entrada do morro. Perto das 4h30, alguém gritou: “Vão invadir!”. Os policiais, com cães, subiram o morro pela entrada principal, enquanto outros entraram pelo “14”, e mais um grupo subiu pela mata ao lado do motel Vips.
Antes disso, porém, um aparato inacreditável para o tamanho da comunidade, formado por cinco tanques de guerra e o Caveirão (blindado do Choque), subiu o morro para abrir caminho para a tropa.Alguns não conseguiram passar pelas barreiras de óleo, móveis e até um carro, colocados nas ruas. Não houve resistência, nem sequer qualquer tipo de encontro entre policiais e traficantes. (leia mais).

A orientação inicial era de que ninguém saísse de casa no domingo, mas com a calmaria, foi inevitável. Aos poucos, os moradores se acostumavam com a nova realidade. As crianças foram as mais rápidas.
A recepção variou conforme as 50 mil opiniões presentes no morro. Em nenhum momento, porém, foi hostil. Por muitas vezes,  no entanto, foi com desconfiança que os policias do Choque foram recebidos, nos dois meses que estiveram presentes.

UPP instalada, hora de consolidar o projeto
No dia 18 de janeiro de 2012 foi inaugurada a sede da 20ª UPP do Rio de Janeiro. A UPP Vidigal, sob comando do Capitão Fábio Pereira, chegou com um efetivo de cerca de 230 policiais, sendo 40 por turno de 12 horas.
Para os moradores, mais um momento de adaptação: o terceiro comando em seis meses.

Ao contrário do propagado pela imprensa, a polícia encontrou um morro organizado, com serviços públicos e turismo efetivo. O processo agora é de consolidação e regularização de setores como transporte e eventos. Boquiabertos com o novo escritório de frente para o mar, os policiais já se misturam aos moradores, conhecendo alguns pelo nome, entendendo a realidade local. Se ocupam principalmente de brigas de casais e excesso de embriaguez e muitas vezes têm função de polícia turística, sugerindo, inclusive, um novo viés para a formação das novas turmas.

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Um comentário sobre “Ocupação e UPP

  1. É uma pena que apenas trocaram os delinquentes por outros fardados. Daqui a pouco começaram a nascer as crianças que herdaram os genes dos maus policiais que aliciam as meninas em suas rondas pela favela!!!

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