Vidigal, um sargento de milícias

Guarda Real de Polícia da CorteHá 40 anos, quem encontrasse um morador da região compreendida entre Leblon e São Conrado e lhe perguntasse o endereço, fatalmente ouviria: “moro no Portão do Anglo”. Assim era conhecido o Vidigal, em referência ao colégio que desenvolveu a região a partir de 1911. Não se sabe ao certo quando o morro passou a ser chamado pelo nome de seu primeiro proprietário, o Major Miguel Nunes Vidigal.

O terreno foi um presente recebido dos monges beneditinos por volta de 1820, em reconhecimento aos bons serviços prestados pelo policial, que fazia parte da Guarda Real de Polícia da Corte. E que “bons serviços” eram estes? O de manter a ordem a todo e qualquer custo, a troco de muita chicotada em quem a ameaçasse – ou, pelo menos, que ameaçasse o que ele considerava a ordem. Seus prisioneiros na maioria das vezes eram negros, e um de seus passatempos prediletos era acabar com festas e manifestações culturais populares.

Lá vem o Vidigal!
Único personagem real do romance “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manoel Antônio de Almeida, o Major é assim descrito: “Era o Vidigal um homem alto, não muito gordo, com ares de moleirão; tinha o olhar sempre baixo, os movimentos lentos, e voz descansada e adocicada.

Negros Volteadores – Debret

Apesar deste aspecto de mansidão, não se encontraria por certo homem mais apto para o seu cargo”.

Ao ouvir uma voz mansa a lhe por a mão no ombro no meio da madrugada, ao boêmio que carregava seu violão “o único remédio que tinha era fugir, se pudesse, porque com certeza não escapava por outro meio de alguns dias de cadeia”.

Para se ter uma ideia de como era a repressão cultural na época, a frase “aí vem o Vidigal!” dava a senha para debandada geral. Uma quadrinha popular da época, brincava:

Avistei o Vidigal.
Fiquei sem sangue;
Se não sou ligeiro
O quati me lambe.

Avistei o Vidigal,
Caí no lodo:
Se não sou ligeiro
Sujava-me todo.

Era no Tempo do Rei A atitude repressiva era apoiada pela sociedade livre da época. Um documento de 1821 apresenta requerimento de João Inácio da Cunha à Miguel Nunes Vidigal: “que se acabe com todos os bailes de negros, pois deles resultam desordens e bebedeiras que incomodam os moradores da cidade”

Sobre ele, Ruy Castro escreveu o livro “Era no Tempo do Rei”, que mais adiante inspirou um musical. Entre as canções, uma em especial mostra a fama do Major: em “Solilóquio para Vidigal” Carlinhos Lyra e Aldir Blanc citam 15 sinônimos para a palavra canalha, e acabam com uma possível auto-revelação da autoridade:

No fundo eu sei que parto a espinha da canalha
Com tiros, chicotadas, gritos desmedidos
Porque me corta a pele o fio da navalha:
O horror de me enxergar no espelho dos perdidos!

Negros Kalimbistas - Debret

Negros Kalimbistas – Debret

Se o Major nada deixou de herança cultural para o Vidigal, que é fonte inesgotável de tudo o que ele reprimia, o mesmo não se pode dizer da influência para a polícia do Rio de Janeiro. Desde 2007 a resolução 013, da Secretaria de Segurança Pública, é utilizada para reprimir, de forma desmedida, os eventos na cidade. Curiosamente, ela só é aplicada em favelas, onde os mesmos boêmios continuam a andar com seus violões e a terem suas festas proibidas pela polícia. São “estes bailes de negros, que incomodam os moradores da cidade”, como reclamava o sr. João Inácio, em 1821, ainda um desafio para as autoridades.

Um comentário sobre “Vidigal, um sargento de milícias

  1. – ”AMO MUITO TUDO ISSO…”
    Obrigado ao criador ou a quem deu a ideia desse site!

    Ficar sabendo um pouco mais sobre a cultura de seu próprio território e sempre muito importante. E interessante também.

    Divulga….

Diz alguma coisa!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s