O Vidigal é…

No Rio de Janeiro, entre o mar e a montanha, em meio a dois bairros de luxo – Leblon e São Conrado -, está um lugar mítico e desejado. Rejeitado e invejado. Desenvolvido e precário. Lá está o Vidigal.
Com cerca de 50 mil moradores, segundo estimativa local, o morro é exemplo de luta, produção cultural e vida em comunidade. O Vidigal é.. É uma pequena cidade do interior, dentro de uma das metrópoles mais desejadas do mundo, e que se orgulha de ter sido a primeira favela brasileira visitada por um Papa, especificamente, João Paulo II em 1980.

Considerado a “Zona Sul das favelas”, a “nova Santa Teresa”, ou, simplesmente para os mais íntimos, “paraíso”, o Vidigal viveu turbulências históricas, como a luta dos moradores contra a remoção, em 1978, a entrada do tráfico nos anos 1980 – que entre 2004 e 2006 culminou com uma guerra entre facções -, a aparente tranquilidade da segunda metade dos anos 2000, até o processo de pacificação, iniciado em 2011, com a ocupação pelo Batalhão de Choque, e consolidado com a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em janeiro de 2012.

O Vidigal é.. Com boa oferta de creches, duas escolas públicas e uma particular que oferece generosas bolsas de estudo, facilidade de acesso a bairros com infraestrutura e, claro, uma vista paradisíaca, a comunidade passou a ser cobiçada por estudantes, famílias de classe média baixa e estrangeiros. O processo corria lentamente até meados de 2010, quando os conflitos cessaram no morro e os imóveis, antes na linha de tiro, foram valorizados. Com a chegada de turistas, a inauguração de albergues e a entrada da polícia, o Vidigal vive um momento de instabilidade diante das possibilidades econômicas.

Seu potencial turístico que vai muito além do “Favela Tour”, com ateliês, charmosos bares,festas que já estão entre as mais badaladas da cidade, a trilha para o topo do Morro Dois Irmãos e a crescente oferta de hospedagem, é promessa de um futuro de expansão, que enche os olhos de muitos e apavora tantos outros que podem ficar de fora deste processo.

Um morro de contradições
Apesar de ter uma única entrada de carro, pela Avenida Presidente João Goulart, antiga Estrada do Tambá, o Vidigal pode ser dividido em duas partes: a primeira, formada pelo pessoal “do IPTU”, que têm os imóveis legalizados desde o princípio, e o restante do morro, que adquiriu o direito de ocupar os terrenos, que foram desapropriados para fins sociais.Pedra Bonita - Vidigal
Hoje mais unidos, os dois lados chegaram a ter existências paralelas. Um bom exemplo são alguns jovens atores e produtores, muitos oriundos da parte mais pobre do Vidigal, e que atualmente moram nos “prédios dos artistas”, apelido dado ao Condomínio Pedra Bonita, que desde sua construção recebeu moradores ilustres, como Gal Costa, Lima Duarte e Sergio Ricardo – este morador até hoje, e que teve importância ímpar no processo de legalização da “favela”.

Enquanto Guti Fraga, fundador do Grupo Teatral Nós do Morro, chegava no final dos anos 1970 acompanhando a movimentação cultural que se formava em torno da região do “IPTU”, e que resultaria na revolucionária criação da ONG, em 1986, os moradores do restante do Vidigal ainda carreagavam em baldes a água retirada de nascentes, levadas para os barracos de madeira, já que a construção de casas de alvenaria era proibida na época.

As lições do tempo
O Vidigal também é um lugar propício a certas “pegadinhas” históricas. Talvez a mais interessante delas venha da contradição de seu nome, derivado de seu primeiro proprietário, o Major Miguel Nunes Vidigal, da Guarda Real Portuguesa.Melanina Carioca no Vidigal Homem truculento, ele era avesso a batuques e outras manifestações culturais, principalmente as negras. Recebeu as terras dos monges Beneditinos, em 1820, e não fez muito uso. Quis o destino que, 150 anos depois, o lugar passasse a ser reconhecido exatamente pelo talento artístico de seus habitantes, a maior parte, negra.

Antes, porém, em 1911, instalou-se por lá o primeiro investidor, o inglês Charles Armstrong, fundador do Gimnazio Anglo-Brazileiro, colégio que deu início ao povoamento do Vidigal. A ironia vem do destino: hoje amados e odiados no morro (este último adjetivo, resultante do temor pela especulação imobiliária e alta no custo de vida), os “gringos” foram os primeiros a chegar.

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